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Yngwie Malmsteen - Estrela Decadente
Protagonista de inúmeras confusões em sua recente passagem
pelo Brasil, YNGWIE MALMSTEEN passa por um momento difícil em sua
carreira. Com exclusividade, Regis Tadeu traz toda a verdade do que aconteceu
nos bastidores dessa turnê que quase se transformou num desastre.
Quem ainda não viu, está marcando bobeira. É altamente
recomendável que você assista ao filme Spinal Tap. Para quem
não sabe, é o relato sensacionalmente ácido sobre
a carreira do fictício trio de heavy metal, mostrando todo o ridículo
da vida de seus integrantes, rotina na estrada, bastidores, etc.
Resolvi começar esta matéria dando o exemplo cinematográfico
de algo que acontece realmente com inúmeros artistas e bandas com
uma frequência que chega a ser assustadora. Ser um rockstar, muitas
vezes, significa ser um personagem patético dentro de uma realidade
ainda mais patética, da qual muita gente não consegue sair
ou você acha que os caras bebem e se drogam só para
não assistir a um show da Família Lima?
Infelizmente, um dos maiores guitarristas de todos os tempos acabou transformando-se
num Spinal Tap ambulante, de carne, banha e ossos. Hoje, ninguém
mais do que Yngwie Malmsteen personifica todos os estereótipos
alienantes e megalomaníacos dos quais aprendemos a tirar sarro
quando visto em outros grandes astros do cancioneiro mundial comparado
ao guitarrista sueco, Axl Rose é um vendedor de apólices
de seguro e protagonista de histórias bizarras, como aquelas
que falam de seu saudável costume de distribuir catarradas pelo
chão de sua própria casa e de seus passeios pelos shopping
centers de Miami (onde mora), acompanhado de esposa e filho, este vestindo
uma roupinha de couro preto (!) e embalado num carrinho muito parecido
com o Cupê Mal-Assombrado (quem assiste ao desenho A Corrida Maluca
sabe do que estou falando).
Aquarela do Brasil
Antes da chegada do rotundo guitarrista ao aeroporto de Cumbica (São
Paulo) numa segunda-feira (1/10), a equipe de produção dos
shows brasileiros que haviam sido adiados por conta dos problemas
causados pelos terroristas malucos em Nova York - já esperava por
alguma confusão na turnê, pois tinha sido alertada pelo pessoal
do Savatage e por Vander Taffo, que já havia lidado com Malmsteen
durante um tumultuado workshop realizado há dois anos. Estava previsto
para esse dia uma entrevista coletiva e algumas individuais (dentre as
quais uma para COVER GUITARRA).
Às seis da manhã, o gigante sueco finalmente desembarcou
em terras brasileiras. Terrivelmente mal-humorado por ter viajado na classe
executiva segundo ele, uma verdadeira ofensa para quem merece sempre
poltronas de primeira classe e por ter discutido com a comissária
de bordo, que se negou a colocá-lo numa poltrona próxima
à cabine do piloto, como ele queria, Malmsteen apareceu no saguão
do aeroporto sem carregar nenhuma bagagem de mão, bêbado,
inchado como um baiacu, totalmente detonado. Ao ser informado de que teria
de permanecer por lá até a chegada do restante da banda
e dos 750 kg de equipamentos, o guitarrista ficou ainda mais irritado.
Bebendo uma lata de cerveja atrás da outra, ele não acreditou
quando viu que iria para o hotel a bordo de uma van alugada pela produção.
Onde está minha limusine?, começou a gritar
a plenos pulmões no saguão, chamando a atenção
de todos que por ali passavam.
Finalmente convencido a entrar no veículo depois da promessa
de que iria sozinho nela, sem a presença da banda e dos roadies
Malmsteen percorreu todo o trajeto reclamando do calor, do ar-condicionado,
do trânsito, da distância do aeroporto, da agenda de entrevistas
e da música do Pearl Jam que tocava no rádio (ele se referiu
aos dois guitarristas do grupo como imbecis que nem sabem afinar
o instrumento). Isso tudo sem parar de beber latas e latas de cerveja...
Ao chegar ao hotel cinco estrelas reservado para ele e sua comitiva, surtou.
Aos gritos, xingou toda a equipe de produção do Brasil e
os funcionários do hotel, alegando que merecia coisa melhor por
se tratar de um verdadeiro rockstar. Vocês pensam que sou
alguém do Labyrynth ou do Rhapsody para me tratarem assim? Eu sou
um astro, sou um rei! Sou como Mozart! Estou pouco me fudendo com a minha
banda! Sou uma estrela e exijo ser tratado como tal. Todo mundo
ao redor ficou atônito e apavorado, incluindo sua produtora pessoal
(que vim a saber depois que era sua cunhada, uma tal de Denise Love) e
a própria banda. Ordenou que todas as sessões de fotos e
entrevistas incluindo as com os integrantes do grupo - fossem canceladas,
chegando até a ameaçar pegar um táxi, voltar ao aeroporto
e embarcar de volta para Miami. Isso sem falar na quase tentativa de agressão
que um dos integrantes da produção sofreu por parte do guitarrista.
Uma cena lamentável... À tarde, numa reunião com
outros membros da produção brasileira, exigiu que as bandas
inicialmente escaladas para a abertura dos shows (Santarem em São
Paulo e Hybria em Porto Alegre) fossem limadas da empreitada,
que os concertos começassem mais cedo (às 21 h) e que providenciassem
efeitos pirotécnicos (fogos e explosões), coisas que não
estavam no contrato previamente assinado. Mas as bizarrices não
pararam por aí...
Durante o jantar, numa tradicional churrascaria, Malmsteen voltou a manifestar
uma inacreditável indignação na hora de servir-se
do buffet de saladas. Sou um cara que nasceu para ser servido. Me
recuso terminantemente a ir até lá e servir a mim mesmo.
Algum de vocês vai até lá e me traga alguma coisa
interessante. Ao mesmo tempo, a tal Denise Love (que raio de nome
é esse?) já havia avisado a equipe brasileira que ninguém
deveria, em hipótese alguma, aproximar-se dele para pedir autógrafos.
Ele detesta isso e chega até a ser muito grosso com a molecada,
recomendou. Enquanto isso, Malmsteen e seus amiguinhos se dedicavam à
saudavel atividade de arrotar em volumes estratosféricos dentro
do recinto. Aquela coisa de quem foi educado na Suíça, sabe?
No dia seguinte, terça-feira, Malmsteen e seu exército de
Brancaleone mambembe embarcaram para Porto Alegre. Lá chegando,
o guitarrista para variar, em pleno aeroporto se envolveu
em tremendo bate-boca com Carlos Oñono (um promotor colombiano
que comprou todas as datas da turnê sul-americana e revendeu-as
para diversos promotores de outros países, incluindo o Brasil)
simplesmente porque o avião teve de fazer uma escala em Campinas
(SP) e novamente pelo fato de a comissária de bordo
não transferi-lo para uma poltrona mais adequada. Mas isso não
foi nada comparado ao que veio a seguir...
O dia em que Bin Laden virou herói brasileiro
Durante o show na capital gaúcha, Malmsteen, num determinado momento,
começou a tocar Star Spangled Banner, o hino nacional
americano, que acabou imortalizado na versão de Jimi Hendrix. Algumas
pessoas na platéia procederam a gritos do tipo Brasil! Brasil.
Até aí, nada demais. O caldo passou a entornar quando Malmsteen,
inexplicavelmente, voltou inúmeras vezes a citar trechos do hino
em outras músicas, o que levou as mesmas pessoas (não mais
que uma dúzia delas) a gritarem Bin Laden! Bin Laden!.
Tudo bem, nada poderia ser mais politicamente incorreto do que isso -
embora tal atitude possa ser explicada mais pelo jeito galhofeiro com
que o brasileiro lida com as tragédias (quem não se lembra
das piadas surgidas a respeito da morte de Ayrton Senna um dia depois
do ocorrido?) -, mas foi o suficiente para que Malmsteen, irritadíssimo,
fosse ao microfone e mandasse a platéia inteira se foder. O que
se seguiu foi um grito uníssono vindo das 1.500 pessoas presentes
ao Bar Opinião: Bin Laden! Bin Laden!. O show tinha
ido por água abaixo... Para piorar, o tecladista Derek Sherinian
(o único americano da banda), colérico com tal atitude do
público, resolveu colocar uma mensagem em seu site, manifestando
seu repúdio por tal situação e dizendo que não
fazia a menor questão de voltar a tocar numa terra de Terceiro
Mundo infestada de caipiras. Desnecessário dizer como a noite
terminou em termos de astral...
No dia seguinte, o pânico era geral. Sherinian começou a
receber e-mails de todas as partes do mundo (incluindo de alguns colegas
músicos) criticando abertamente a mensagem por ele colocada em
sua home page. Com o passar das horas, começaram a surgir boatos
de que a notícia havia se espalhado como pólvora e que a
banda encontraria no próximo show (em Curitiba) uma platéia
mais hostil que o Taleban. Apavorado com a repercussão da coisa,
Sherinian arregou e pediu que uma entrevista coletiva fosse marcada tanto
em Curitiba quanto em São Paulo, para que ele se desculpasse publicamente
pelo ocorrido, não sem antes comprar uma camisa da seleção
brasileira (que usou nas apresentações subsequentes) e um
CD com o hino nacional do Brasil (que aprendeu a tocar e apresentou-o
tanto em Curitiba como em São Paulo).
O show em Curitiba foi considerado como o melhor dos três que Malmsteen
realizou no país, embora não livre de problemas. O guitarrista
atrasou na sua passagem de som e as portas do local foram abertas enquanto
o sueco ainda estava envolvido na tarefa. Possesso, ele obrigou a produção
a esvaziar totalmente o recinto (200 pessoas já haviam adentrado
o local), causando um tremendo mal-estar, tanto no público quanto
no pessoal da casa. Já a apresentação em São
Paulo antecedida por um festival de esporros e broncas nos roadies
e na equpie técnica - foi considerada onga e cansativa, com Malmsteen,
após o espetáculo, reclamando muito nos camarins
por conta da frieza da platéia, calculada em apenas 2.500 pessoas
bem longe dos quase 6 mil presentes ao show do Hellowwen, por exemplo.
Considerações Finais
Bem, meus amigos, o saldo final dessa rocambolesca turnê não
poderia ser diferente. Infelizmente, o outrora fabuloso guitarrista sueco
é hoje um ser em total decadência tanto física
quanto mental e sem um pingo do carisma de outrora. Bebe como um
gambá, trata todos à sua volta como se fossem seus lacaios,
passa longe de um chuveiro (durante sua estada no Brasil, não trocou
de roupa uma uma única vez, optando pelo uso de uma água
de colônia, cujo odor resulta num coquetel de balas de menta, inseticida
contra baratas e gases intestinais), é agressivo com quem aparece
pela sua frente incluindo seus próprios fãs, ainda
responsáveis diretos pela manutenção de sua cambaleante
e errática carreira. Seu último CD, o péssimo War
to End All Wars, correu sério risco de não ser lançado
pela quase total falta de interesse de inúmeras gravadoras contactadas.
Sua equipe é totalmente amadora a cunhada é sua manager,
seu sogro é o empresário, seu técnico de guitarra
evita ser fotografado e não dá entrevistas se a conversa
for gravada (leia o relato de Marco Colonna a respeito disso nesta mesma
matéria), seu profissionalismo é quase zero. Nem o argumento
de que rockstar é assim mesmo pode ser usado. Por experiência
própria, afirmo categoricamente que caras como Slash, Mick Box
(Uriah Heep), Brian May, Tony Iommi, Andy Timmons, Marty Friedman e Eddie
Van Halen - só para citar alguns não apenas são
artistas amabilíssimos e profissionais, como transmitem uma imensa
alegria pelo que estão fazendo.
O intuito desse relato não é denegrir a imagem do grande
guitarrista que Malmsteen foi. A intenção foi mostrar, de
forma franca e por vezes crua, o que acontece quando um gênio perde
a humildade, a capacidade de lidar com o mundo real e, principalmente,
o carinho por seus fãs, esses verdadeiros abnegados que, a cada
dia que passa, vão diminuindo em número, cansados de tanta
mediocridade.
texto retirado da Cover Guitarra, esse texto nao representa a minha opniao.
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